quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nós e o Movimento Estudantil

Paula Regina de Oliveira Cordeiro, estudante de Geografia- UFBA, militante dos coletivos Contra Corrente (levante feminista e de gênero) e Mulheres na Rua.
 
Nós, mulheres, sempre encontramos maneiras de nos reunir para organizarmo-nos, isso se deu das mais diversas maneiras, de acordo com as exigências de tempo, espaço e privação. Fomos as negras que lutaram e expulsaram, as sufragistas que conquistaram os votos, as lésbicas que levantaram as vozes, as poetizas que reinventaram as letras, as artistas que deram as nossas formas, as escritoras que apontaram o nosso ver e existir e agora temos que ser as estudantes que falam, que reivindicam uma nova maneira de fazer e ser política.
Poderia ir pelo viés: “quantas mulheres estão fazendo parte dos cargos mais importantes do Movimento Estudantil?”, mas como diz uma grande amiga “Ser mulher não basta. Mulher por mulher o mundo está cheio. Mulher não é sujeito político. Temos que ser Feministas. Feminista no seu sentido mais radical e defender as mulheres sempre.”. Prefiro, pois, ir aos problemas mais acalorados e difíceis.
O primeiro deles é o direito a fala e a maneira com a qual são conduzidos os debates e os espaços. Os companheiros não têm a sensibilidade, ou simplesmente não querem mesmo, perceber que fomos treinadas – graças à justificativa biológica – para não nos posicionarmos, falarmos ou até mesmo pensarmos. E, caem numa reprodução de construção de debates que continua a não permitir o nosso posicionamento, a não ser que nos portemos como eles “homens”. Não quero aqui discutir essas categorias de gênero mais profundamente, pois fugiria do objetivo central do texto. Com esse fazer político “masculino”, somos forçadas a nos comportar como eles ou a nos omitir por completo, cuidando apenas das atas, das artes e de outras atividades socialmente destinadas a mulher.
O segundo, e talvez o mais grave, seja a tática dois (sem falar na 3, 4, 5 que estão começando a entrar na moda), mais conhecida como t2. A tática dois se consiste basicamente em pessoas seduzirem outras pessoas para entrarem no Movimento Estudantil – e nas suas correntes políticas dentro do mesmo. Sedução essa que por vezes compromete a pessoa que está sendo cooptada. Para muitas/os tal tática é transversal, ou seja, atinge tanto homens quanto mulheres, mas para mim ela é sexista, misógina e machista. As mulheres, novamente pela construção que lhes são impostas, estão muito mais expostas a cair nessa armadilha. Um carinha descolado começa a se interessar por ela, de repente ela se vê envolvida com várias pessoas, festas, sensações novas, entra no M.E e o carinha a larga. Além de ser completamente repudiável, a t2 reforça o papel submisso da mulher, somos vistas como carne, massas de manobra. Depois de entrar na corrente, as mulheres acabam sendo vítimas do problema número um. Sendo invisíveis, a não ser quando as mesmas se revoltam, se organizam, mostram a cara e começam a questionar, o que não é muito bem visto pelos companheiros, já que “a conjuntura não é favorável, companheira.”, ou melhor, “temos que nos manter unidas/os sempre.”. 
O terceiro problema que identifico é o não respeito pelas bandeiras feministas dentro do Movimento Estudantil. O aborto não está sendo discutido, a sua legalização não está sendo pautada; o fim da violência sexista anda no mesmo processo, assim como o assédio sexual, moral e emocional. Sem falar que, como me refiro ao M.E da/na Universidade, a interseccionalidade de Gênero, Raça e Classe quase nunca é tocada, já que os companheiros estão interessados unicamente (e de maneira às vezes rasteira) no debate de Classe, tornando-a mais importante que os demais. Ficamos refém, portanto da vontade política e ideológica dos homens para tocar as nossas bandeiras históricas.  E até quando continuaremos reféns?
O quarto problema é o aparelhamento e emperramento por parte dos companheiros dos instrumentos de lutas historicamente feministas. Vide, a utilização destes instrumentos para eleição de chapas de DCE’s, CA’s e DA’s; sua pouca ou nula atividade dentro e fora da Universidade, e quando as atividades ocorrem restringem-se apenas à luta burocrática, a qual fere o caráter criativo do feminismo que sempre foi caracterizado pelo enfrentamento político direto (nas suas diferentes táticas e estratégias), intelectual e político (esferas de poder burocráticas ou não).
Quero lembrar, que o meu problema não é com todos os companheiros do M.E, mas sim com aqueles que fazem questão de manter o papel socialmente construído da mulher dentro dos espaços de poder e disputa. A crítica é para os companheiros que nunca pararam pra pensar até que grau estão oprimindo as mulheres dentro e fora do M.E. E critico, nós mulheres que não conseguimos romper com essas amarras e nos mostrar firmes, políticas, agressivas e combatentes. A nós, que não nos organizamos que não impomos as pautas feministas dentro de nosso raio de militância. E acho que está na hora de retomar as experiências das feministas revolucionárias e criarmos e tomarmos o nosso espaço, na tentativa também de re-movimentar o movimento estudantil. De construir com as e os estudantes as nossas pautas, para que possamos ter vitórias políticas concretas.
Aproveito a emoção e a força herdada de Audre Lorde para agradecer as minhas companheiras e companheiros (de verdade), que me deram o caldo político para escrever essa carta/texto. Agradecer as companheiras que se identificam como Feministas e que tem tentado travar esse debate dentro dos seus espaços de militância. E aos companheiros que tem nos apoiado e provado que ser pró-feminista também é muito importante. Agradeço às minhas rainhas ancestrais, as guerreiras ainda presentes e as que virão.
E proponho: organizem-se, combatam, vivam e vençam. Precisamos enfiar com muito debate e proposições as nossas bandeiras, as nossas angústias. Por que o pessoal é político e o Movimento Estudantil precisa saber disso.

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