segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Consumo e sexismo no dia das crianças

*Raíza Wallace Guimarães da Rocha

Esse seria um excelente dia para os pais passarem mais tempo com seus filhos e filhas, brincando e ensinando a importância de viver coisas típicas da infância. E não incentivando a ser adultos mirins, sexistas e consumistas compulsivos.
 
Como estudante de Terapia Ocupacional, reconheço a importância do brincar para o desenvolvimento sócio psicomotor da criança. Porque sei que é através do brincar que ela vai desenvolvendo habilidades motoras, sensoriais, cognitivas, SOCIAL e emocional. E por isso acho essencial que tenhamos cuidado com os brinquedos que damos a essas crianças.

Você já reparou se os brinquedos que você está comprando não estão impondo padrões comportamentais sexistas?
 
Você dá bonecas, joguinho de panela, Barbie, fogãozinho, batedeira, bebezinhos, para as meninas. E os caminhões, carros, bola, monstros, para os meninos. E depois nem desconfia o motivo pelo qual sua filha cresce achando que nasceu pra ser mãe, que fazer os serviços domésticos é uma responsabilidade somente sua, que precisa investir em sua 'beleza', só por ter nascido mulher. 
Enquanto seu filho acha que precisa gostar de futebol, odiar rosa, ser o motorista (sim, porque mulher no volante é perigo constante, não?), não pode gostar de bonecas e nem fazer trabalhos domésticos.
 
As propagandas de brinquedos direcionadas às crianças incentivam um consumo exacerbado e esteriótipos retrógrados. As meninas querem ser princesinhas, que usam salto alto, maquiagem, não brincam de correr, querem um celular, precisam ser magras e ter cabelo liso como a Barbie (ou seja, a menina que é negra, gorda e tem o cabelo afro, se rejeita e é rejeitada... Não é a toa que vemos milhares de meninas alisando o cabelo e fazendo dietas malucas para sentirem-se 'bonitas'). Já os meninos querem jogar video-game, futebol, jogos bélicos,etc. A ideia de poder, força e vitória é direcionada a eles, enquanto que maternidade, sonhos e beleza estética são predominantes em anúncios para meninas.

As crianças almejam ser como as das propagandas, tanto no aspecto estético, quanto no fato de terem todos os brinquedos à sua disposição e refeições à base de fast-food (imagina o impacto disso para uma criança pobre?). É aí que surge uma lógica consumista que modela as relações da criança consigo e com o mundo. Então inicia-se a assimilação de que a felicidade está associada ao consumo e uma falsa necessidade.

Precisamos contestar esses hábitos sexistas, que são resultados de uma manipulação silenciosa. Não compre produtos com propagandas sexistas ou que estimule isso. Não incentive o consumo exacerbado. Será que essa criança realmente precisa de brinquedos novos?

Até quando você transformará o brincar, que deve ser uma experiência emancipatória, em uma prática nociva e reprodutora de esteriótipos e padrões sociais? Precisamos refletir sobre os impactos disso na condição da mulher, na representação das relações no interior da família, nos sonhos e relações sociais... Ou continuar com essa venda nos olhos, achando que o machismo e sexismo são coisas inatas. 

 
* Estudante de Terapia Ocupacional, militante da Marcha Mundial das Mulheres e do Coletivo Feminista Conceição Evaristo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Relatoria reunião 18/9/11

Relatoria
Reunião do Coletivo Feminista Conceição Evaristo – 18/09/11

Presentes:
Iúna Gabriela
Raíza Guimarães
Débora Accioly
Cynthia Funchal


Informes:
Cynthia – Cris me ligou dizendo que o ENUDs não irá mais acontecer este ano, e foi adiado para o ano que vem antes do carnaval. Levando em consideração que isso afeta a data escolhida para o seminário de formação (que iria ocorrer na data do ENUDs), acho importante a gente marcar outra reunião para discutir o seminário.

Pauta:
- Discussão de como e o que seria o material didático;
- Estabelecimento de datas e ações.

Discussão sobre o material didático

Colocações feitas pela Cindy através da lista de e-mails: Acho que devemos fazer uma coletânea de propostas para aulas, com indicações de filmes, livros. Podemos na parte de literatura, fazer um apanhado dos períodos literários de como era a situação da mulher, para que sempre que fosse trabalhada certa escola literária, a situação da mulher fosse falada. Minhas propostas dentro da pauta:

- Discussão de como e o que seria o material didático;
 Planos de aula e suporte para os conteúdos a serem trabalhados nas aulas de LP e literatura. Para as aulas de LP, podemos pegar textos, propor questões de analise linguística, e somado a isso falar da questão da mulher, propor projetos, trabalhos que possam fazer os/as meninos(as) pensarem e refletirem. Na parte de literatura, podemos fazer tópicos para serem comentados e abordados em cada período literário, de como era tratada a mulher na literatura e na sociedade. Essa parte da literatura eu vou ajudar a fazer.

- Estabelecimento de datas e ações.
Confesso que no final desse mês vai estar bem complicado pra mim, pq é final d bimestre, correção de prova, soma de notas .... Mas no começo de outubro, sugiro que ja podemos começar a produzir entre os grupos que ficaram responsáveis por cada parte, e acho que no  final do ano o material deve estar pronto. Acho também que podíamos lançá-lo oficialmente em algum encontro, pode ser da exnel ou não.

Débora:  Eu quero saber se vocês não acham que a gente tá atropelando e juntando tarefas. Ao meu ver, essa parada de material didático é importantíssima e poderia até ser um encaminhamento concreto no nosso encontro. Acho também que antes de fecharmos o seminário não deveríamos abarcar coisas que vão acabar comprometendo muito.Até porque o espaço de formação nos daria essa maturidade de, inclusive, sabermos quem somos, quantas somos, etc..

Cynthia: Por mais que eu acredite ser importante termos esse material o quanto antes, concordo com a Débora. Acredito que o seminário seja o espaço ideal para ainda discutirmos mais a fundo a produção do material, além de nos dar mais tempo para trabalharmos nele e em outras coisas do Coletivo também. Mas isso também não impede que a gente já se adiante um pouco no que pretendemos fazer, como, por exemplo, juntar ideias e conteúdo para incluir no material, alguns textos já prontos, para que a gente discuta no seminário e já tenha isso pronto antes do início do próximo ano, pois aí já temos o que disponibilizar no início das aulas no ano que vem.

Débora: Proponho que a gente priorize o seminário, marcando uma reunião o quanto antes, porque temos que correr atrás de uma data que contemple a maioria, temos que correr atrás de passagem, de ajuda de custo, de preparação do material de estudo do seminário.

Encaminhamentos:
- Adiar a criação desse material para ser discutido mais a fundo durante o seminário.

Estabelecimento de datas e ações

Raiza: Temos que fazer algo para agregar mais pessoas ao nosso coletivo feminista. Precisamos de apoio. Podíamos tirar como encaminhamento, por exemplo, que no dia 25 de novembro (dia internacional da não-violência contra a mulher) façamos uma roda de conversa na universidade.  Coisas do tipo, pra ir promovendo o debate e divulgando o coletivo feminista. Fica mais fácil de atuar quando não estamos sozinhas. Então, acho que rola de marcarmos as datas principais em que iremos atuar inicialmente e pedir ajuda aos centros acadêmicos pra tocar essas atividades. Depois acho que já teremos condições de tocar sozinhas. A temática seria violência contra a mulher (25 de novembro). Depois do debate, podíamos criar um texto e postar no blog, cada região tem uma especificidade a respeito disso, então acho que rola vários textos a respeito.

Encaminhamentos:
- Pensar em temáticas para discussão em datas importantes para o movimento feminista, com o apoio de textos e materiais e a ajuda dos Centros Acadêmicos
- Próxima reunião para discutir o encontro de formação: Domingo, 25 de setembro, às 20h.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sorria, você está sendo manipulada!



Raíza Wallace Guimarães da Rocha
Desde os primórdios desta sociedade do patriarcado capitalista não é difícil perceber a visão estereotipada que existe sobre o corpo e sexualidade feminina. Mas é no início do século XX que teremos uma nova visão sobre o corpo, pautada pela dinâmica social, sob a lógica de mercantilização da vida.

É a partir desse período que se fortalecem as práticas sociais de exploração para fins lucrativos do corpo feminino, onde a mercantilização resulta na exibição irresponsável da nudez e corpos idealizados para vender qualquer produto. Além de estabelecer padrões hegemônicos de beleza, levando as mulheres a buscar a perfeição e juventude eterna, ou seja um padrão inatingível, já que os modelos de beleza tornam-se perecíveis e efêmeros. 

Os métodos da ditadura da beleza e padrões comportamentais sob a mulher são os mesmos há séculos, só que adaptados a partir da lógica capitalista e ideologia neoliberal. Eles mudam segundo o tempo e ordem mercadológica. Antes o objetivo era que as mulheres conseguissem um bom casamento e permanecessem no espaço privado destinado a elas, hoje esse processo está sob a óptica consumista e continua perpetuando seus papéis relacionados ao mundo privado. O mercado passa a ter um papel incisivo na subordinação da vida destas mulheres. 

Agora que as mulheres estão no mercado de trabalho elas passam a valorizar e investir mais no seu corpo. Já que nesse mundo de competição a beleza ajuda a conquistar mais espaços ao preço de rígidas exigências de si. Ela precisa estar agradável aos olhos dos outros. Por tanto exige de si estar maquiada, magra e elegante o tempo inteiro, pois somente assim conseguirá ser feliz. 

Esse padrão corporal reflete o contexto sócio-econônimo, cultural e político do aparelho ideológico e da nossa sociedade, que se mostram controladores e opressores. Impondo a nós a ideia de que o nosso potencial está relacionado à forma, logo, a nossa forma corporal traduz quem somos. O nosso corpo passa a ser uma espécie de passaporte para felicidade. 
 

A indústria farmacêutica se confunde com a de estética e o resultado disso é a banalização de remédios, cirurgias, etc. que leva as mulheres a graves riscos de saúde: como bulimia, anorexia, depressão, consumo descontrolado de remédios, que enriquecem essas indústrias ao comercializar os produtos ditos “milagrosos” e outros para amenizar efeitos colaterais de possíveis sequelas. Garantindo assim um crescimento exponencial do consumo e produção dessas mercadorias. A incorporação desses ideais de beleza tornam o corpo um objeto de design a ser modelado sem muito esforço por parte da cliente.


O corpo mercantilizado da mulher sofre uma ampla exploração e é necessário que possamos refletir a respeito da autonomia do nosso corpo diante da ideologia neoliberal e lutarmos pelo pertencimento dele. Você não precisa ficar nesse ciclo de eterna insatisfação com o seu corpo. Não seja mais uma manipulada, boicote esses produtos e pessoas que se utilizam de um discurso machista e leviano em detrimento da exploração da imagem feminina. Liberte-se dessa lógica de mercado mecanicista e utilitarista. Somos mulheres e não mercadoria!


Raíza Rocha é estudante de Terapia Ocupacional, militante do Coletivo Feminista Conceição Evaristo e da Marcha Mundial de Mulheres.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Violência Doméstica – de gol e de porrada

(5’08” / 1,18 Mb) – Domingo de sol. Time em campo. Televisão ligada. Cerveja gelada. E, de repente, um gol anulado. Raiva e gritos, berros, e não falta para ninguém. Cachorro e mulher apanham juntos.

João Bosco e Aldir Blanc, fazendo a arte imitar a vida, imortalizaram essa cena nos versos de “Gol Anulado”, que Elis Regina canta tão bem: “Quando você gritou, Mengo!, no segundo gol do Zico, tirei sem pensar o cinto e bati até cansar”.

A música popular brasileira está repleta de exemplos de mulher que apanha porque o time ganha, porque o time perde, porque ela diz ama, porque ela não quer mais, porque ela quer demais. Porque ela é bonita, porque ela é feia. Porque ela chora ou ri. Não faltam sambas a dizer que a “mulher é um jogo, difícil de ganhar, e o homem como um tolo não se cansa de jogar.”

A despeito de todas as mudanças do último século XX, de movimentos feministas, do mercado de trabalho pleno de mulheres, estas, no Brasil, estão, ainda, na marca do pênalti da violência que ocorre dentro de casa, no sacrossanto lar, no qual as paredes não falam e só ouvem, mudas, os gritos de dor. Vizinho não se mete em bronca de marido e mulher e tem até delegado de Polícia que acha que mulher, no fundo, no fundo - porque será? - gosta de apanhar!

A violência doméstica faz vítimas diárias, pelo Brasil afora. Diz à estatística que são dez mulheres assassinadas por dia. A cada 24 segundos de cada dia, uma mulher brasileira está levando supapo do marido, de seu homem, do amante, do ex, do atual, do chefe do lar; porrada de graça, por graça, porque é mulher.

Faz cinco anos que o legislativo brasileiro criou uma lei, palavra por palavra, mostrando que o problema é sério e que é preciso solução. Criamos o Pacto Nacional pelo Enfrentamento a Violência Contra a Mulher e necessitamos, todos, homens e mulheres, exigir que o Estado cumpra tal pacto, incremente políticas de cuidados à família, para que homem e mulher possam realizar uma composição de respeito, de reconhecimento de que são sujeitos de direito e de deveres de afeto.

A chamada Lei Maria da Penha veio para afastar homem violento da mulher vítima, tentar estancar o gesto bruto e aliviar a dor do corpo e a dor da alma. E, com a lei posta no papel, há que fazê-la funcionar. Para isso, é preciso ter delegacia da mulher, delegada mulher para compreender o choro, ver o olho roxo, a marca mais funda. E é preciso um Poder Judiciário ferramentado para ser rápido e eficiente. Cabe ao Estado, num primeiro momento, proteger a mulher e depois, mais que punir, orientar o homem.

A família desfeita precisa de cuidados. Estão todos feridos. Um pela dor da violência na pele, outro pela dor da violência nas mãos brutas. São Paulo vai instalar e fazer funcionar, nos próximos dias duas Varas Especializadas em violência doméstica. São serviços urgentes e necessários e sabem-se já insuficientes para a imensa população que busca a justiça. É preciso mais, é preciso que setores do estado funcionem para que tudo seja mais direito que torto, mais justo que injusto, menos violento e mais pacífico.

Se houver dignidade e respeito para a criança e para o jovem, se houver um crescer amoroso dentro da família e longe da miséria, menino não vira homem violento por nada, e menina não vira mulher que vai ficar para ver onde o tapa dói. A espiral da violência começa em casa e acaba na rua. É preciso fazer cessá-la. É preciso dar uma chance para o afeto e para o amor. Senão, fica-se como na música: fim de jogo, fim de dia, o “radio está desligado, como se irradiasse o silêncio do amor terminado” e, com mágoa ressentida se aprende “que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado”.

Dora Martins é integrante da Associação Juízes para a Democracia.

19/07/11

http://www.radioagencianp.com.br/9980-Violencia-Domestica-de-gol-e-de-porrada

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Carta Manifesto da Marcha das Vadias - Belém


A Slut Walk ou Marcha das Vadias teve inicio no Canadá em resposta a conduta machista de um policial.  Este declarou que as mulheres eram vítimas de ataques sexuais, pois se “vestiam como vagabundas”. A partir do fato, inúmeras manifestações surgiram em todo o mundo. No Brasil, a cidade de São Paulo foi a primeira capital brasileira a organizar a Marcha, seguidas das cidades do Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, Brasília, Salvador e outras.

As mulheres saíram às ruas com o objetivo de reafirmar a autodeterminação sobre os seus corpos e para combater essa sociedade que as educa para não serem estupradas, porém não ensina a NÃO estuprar.

Agora é a nossa vez de sair às ruas em Belém!
 
Marcharemos para combater a violência cometida contra as mulheres no nosso Estado! As estatísticas provam que, hoje o Pará é o terceiro estado no ranking de queixas de violência contra a mulher, são mais de 237 queixas a cada 50 mil mulheres paraenses. Somando um total de mais de quinze mil queixas em menos de seis meses.
 
A MARCHA DAS VADIAS acontecerá, pois somos chamadas de vadias todos os dias por usarmos roupas curtas, por transarmos antes do casamento e por lutarmos pelos nossos direitos. Já fomos chamadas de vadias por sermos divorciadas, por simplesmente dizer “não” a um homem, e ainda hoje somos chamadas de vadias por sofrermos estupro. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

 Chamam-nos de vadias por ousarmos desafiar essa lógica pré-estabelecida imposta por uma cultura de subordinação e moldada sobre os alicerces patriarcais de nossa sociedade. Somos protagonistas basilares das conquistas de todos os nossos direitos e de instrumentos importantes de combate a violência. Entretanto, alterar as leis, criar mecanismos de proteção ainda não dissipou o “costume” de matar, abusar, explorar suas companheiras, esposas, filhas, irmãs... Mulheres. 

  Por isso nós marchamos!

  Pela prevenção da violência, por posições igualitárias e incondicionais, pelo direito a voz e ao grito, pelo domínio de nossas vidas, pelo direito de ir e vir com segurança, pelo direito de dizer SIM ou NÃO sem sofrermos qualquer tipo de rotulação.

  Marchamos por respeito, não somos mercadorias e nossos corpos não são objeto de prazer e consumo dos homens. Somos contra a lógica da cultura do estupro e contra as piadas que acabam reforçando e naturalizando tal conduta.

 Nós marchamos pois infelizmente a violência contra as mulheres é um fenômeno mundial e atinge a todas, em todas as idades, raças e classes sociais, que sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

 Tomaremos as ruas para sermos reconhecidas como MULHERES, como pessoas LIVRES e IGUAIS. 
Somos fortes, somos livres, somos donas de nós mesmas, somos santas e putas. Somos vadias e vagabundas, Temos o direito de agir, de nos vestir e de nos expormos do jeito que desejarmos. Somos mães e trabalhadoras. Somos estudantes. Somos LIVRES!
 
  E a partir de agora, mexeu com uma; mexeu com todas!

Informações
Quando?
28 de agosto

Onde?
Em Belém, saída na escadinha da Doca
Que horas?
Às 9h

VEM PRA LUTA!

domingo, 24 de julho de 2011

Marcha das Margaridas 2011

2011 razões para marchar por: desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade!

Dias 16 e 17 de agosto em Brasília.




http://www.contag.org.br/hotsites/margaridas/


Caderno de textos para debates: clique aqui.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

É preciso olhar com os olhos de mulher, e mulher de LUTA!

*Iúna Gabriella Paiva
É recente a história de ocupação pelas mulheres do poder. Quando se diz “poder”, refere-se ao ato bruto da palavra, que significa deliberar e agir.

 Até pouco tempo, não podíamos votar, estudar, e éramos mais reprimidas quando nos desviávamos da ordem dominante: a sociedade do patriarcado.


Muita coisa mudou, adquirimos mais direitos, mas ainda somos minoria e continuamos sendo oprimidas em todos os espaços das relações capitalistas e ainda brutalmente centenas de nós é massacrada todos os dias.


E por que isto acontece? Tudo parte ainda do conceito de “luta de classes” a qual Marx se refere, no qual existem os opressores e os oprimidos, e que se expressa em diversos espaços da sociedade.


Mesmo com tudo isto, estamos constantemente ocupando cada vez mais cargos de poder na sociedade. Mas a ocupação crescente destes cargos vem trazendo várias problematizações. Realmente aumentamos o número de cargos em empregos ocupados por mulheres, mas em contrapartida, as mulheres são as que trabalham em piores condições de emprego; ganham menos; ocupam mais cargos de atividades informais; e possuem jornada tripla: casa, família e emprego.


Quando se diz que é necessário se olhar para a mulher com os olhos de mulher, é preciso haver uma identidade com a luta das mulheres. É preciso que as mulheres que chegam ao poder e que podem pensar e planejar maneiras de uma igualdade plena de direitos vejam seus cargos como ocupados pela luta de diversas mulheres massacradas desde que o mundo se fez mundo.


Ainda inseridas na problematização puxada através da luta de classes, é necessário ter a noção de que a mulher branca é muito menos discriminada que a negra; que o papel de educar o filho, ainda cabe à mulher; que há um disparate enorme de escolaridade no que diz respeito às mulheres do campo e da cidade; que por influência do fator social os cargos mais ocupados por mulheres são do setor público; que as mulheres são mais pobres que os homens; e que do seu corpo ainda se sentem dono, o estado, as instituições religiosas e as próprias famílias dominadas por pensamento de homens.


É preciso que as mulheres que ocupem o poder façam desse espaço mais um espaço de atuação da luta das mulheres, e que identificadas com a luta, passem a construir ações conjuntas com os movimentos sociais que lutam pelo fim da opressão à mulher.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!


* Estudante de Letras da UESPI, militante feminista do Coletivo Feminista Conceição Evaristo e da Executiva Nacional dos Estudantes de Letras.

sábado, 21 de maio de 2011

A mulher negra na sociedade de classes

*Débora Accioly Dionisio


[...]O negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como ‘igual’.[...] Ao contrário, para participar desse mundo, o negro  e o mulato  se viram compelidos a se identificar com o branqueamento psico-social e moral. Tiveram que de sair de sua pele, simulando a condição humana-padrão do ‘mundo dos brancos’.[...] (FLORESTAN, 1971, p.15) 
 
Partimos do princípio de que vivemos em uma sociedade dividida em classes antagônicas que coexistem num sistema que sobrevive da exploração de muitos em detrimento do poder e da ganância de poucos e que qualquer situação que tente alargar a distância entre os opressores e oprimidos deve ser amplamente combatida.
Inúmeros são os argumentos hegemônicos difundidos no seio de nossa sociedade - cada vez mais atrofiada pela luta de classes - para justificar a diferença racial e a divergência política que reside nessa diferença. O Capital, desde o seu surgimento, existe com a finalidade de acentuar quaisquer diferenças, forçando a existência de conflitos insuperáveis (nesse modo de sociabilidade), para assim, garantir a sua própria sobrevivência, a sua própria legitimidade. 
 
Um dos principais conflitos históricos no nosso País é a questão que envolve o debate intra-racial. O Brasil, sendo um país miscigenado na gênese de sua alma, conta em sua genética, com cromossomos europeus, indígenas, negros. E a coexistência dessas raças vem sendo ameaçada desde os primórdios. 
 
Condenados, desde sempre, a permanecerem marginais às conquistas sociais, econômicas e políticas, os negros tiveram que lutar para que sua memória sobrevivesse, para que nossos livros de história não contassem uma História mutilada, faltando uma parte tão imprescindível na nossa formação enquanto seres integrantes de uma realidade sócio-historicamente desenvolvida. 
 
Dentro do argumento de “país misturado” levantado pela classe dominante para tentar apagar ou induzir o desvio do debate racial, encontramos a maior legitimidade do sistema capital visando ampliar as distâncias exigidas num mudo de exploração. 
 
Existe ainda outra batalha tão dura e cruel quanto à batalha de pertencer ao seu próprio lugar enfrentada pelos negros: a batalha das mulheres. Mulheres que antes, lutavam por melhores condições e que hoje lutam por igualdade de condições. Mulheres que foram criadas e programas para desempanhar papéis socialmente definidos, quais sejam: dona de casa, esposa e mãe. Mulheres que precisaram queimar sutiãns em praça pública para serem ouvidas, para terem direito à participação mínima na ilusória democracia brasileira. Mulheres que até hoje lutam.

No que consistiriam em aglomerar os dois maiores discursos taxativos da sociedade pós-moderna? Quais são as lutas que tem que ser enfrentadas diariamente por mulheres negras? Elas não lutam ainda por igualdade, já que o respeito ainda não atingiu o mínimo necessário. Elas lutam por um salário digno – já que o salário da mulher negra é o mais baixo do mundo – lutam por não serem taxadas ou discriminadas pela cor da sua pele ou pela cor de seu batom. 
 
São mulheres, que têm que ser fortes desde o seu nascimento, lutando contra as imposições implícitas que diariamente afloram o preconceito sexual, a divisão sexual da sociedade. E têm que redobrar suas forças para combater o também presente e destrutivo racismo. O Brasil é sim composto de raças e nenhuma raça é superior a outra. Nenhum argumento que tente legitimar a diferença das cores cabe numa sociedade que se diz democrática. 
 
Enquanto pretos não puderem ser chamados de negros e forem chamados de “moreninhos”, a sociedade não estará pronta para reconhecer o seu caráter explorador, tendencioso e venenoso. 
 
Acreditamos e defendemos assim, que os plenos direitos de tod@s só serão verdadeiramente respeitados com uma transformação radical da sociedade atual. Acreditamos que só a revolução de pensamento, de corpo, de relações poderá emancipar verdadeiramente o ser humano, entregando a ele a liberdade plena. 
* Estudante de Letras da UFPB, militante feminista do Coletivo Feminista Conceição Evaristo e do Movimento de Casas de Estudantes.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia 8 de março

Dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher - Dia da luta pela Igualdade
Dia Internacional das Mulheres é visto muitas vezes como o dia de se lembrar do quanto a mulher é doce, meiga e sensível. Mensagens são lidas validando isso, apresentações são enviadas pela rede, mostrando a mulher como boa mãe, trabalhadora, apegada à imagem, alguém que deve ser respeitada por querer passar horas no salão, agradar seu marido etc.
Esquece-se muitas vezes de todo um histórico de lutas travadas, mortes, revoluções, discursos, abusos sofridos, e apesar de tudo a realidade atual mostra que a luta travada, foi significativa, mas precisa avançar sempre, não pode parar jamais! A cada dia a luta deve ser constante, e no dia 8 de março, devemos relembrar das lutas, vitórias, analisar o presente e continuar a luta por um futuro melhor.
Um pouco da história
A comemoração do dia 8 de março está vinculada à luta das mulheres por reivindicações políticas, trabalhistas e sociais. No século XIX e início do XX, homens, mulheres e crianças trabalhavam por volta de 12 horas a cada dia, sem condições mínimas de trabalho, além dos péssimos salários. Várias manifestações aconteceram, por melhores salários e condições de trabalho, diminuição da jornada diária e pelo fim do trabalho infantil.
“A cada conquista, o movimento operário iniciava outra fase de reivindicações, mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas. As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava da igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a "luta geral", prejudicariam o salário dos homens e, afinal, as mulheres apenas "completavam" o salário masculino. Subjacente aos grandes movimentos sindicais e políticos emergiam outros, construtores de uma nova consciência do papel da mulher como trabalhadora e cidadã. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Clara Lemlich, Emma Goldman, Simone Weil e outras militantes dedicaram suas vidas ao que posteriormente se tornou o movimento feminista.”
Um Dia Internacional da Mulher foi proposta por Clara Zetkin em 1910 no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, mas o dia 8 de março, que ficou sendo o dia da comemoração, vem sendo associado a um incêndio que aconteceu em Nova Iorque, na Triangle Shirtwaist Company,uma fábrica de tecidos:
“O chão e as divisórias eram de madeira, havia grande quantidade de tecidos e retalhos, e a instalação elétrica era precária. Na hora do incêndio, algumas portas da fábrica estavam fechadas. Tudo contribuía para que o fogo se propagasse rapidamente. A Triangle empregava 600 trabalhadores e trabalhadoras, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, jovens de 13 a 23 anos. Fugindo do fogo, parte das trabalhadoras conseguiu alcançar as escadas e desceu para a rua ou subiu para o telhado. Outras desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo se expandiram e trabalhadores/as pularam pelas janelas, para a morte. Outras morreram nas próprias máquinas.”
(Fone: Idem.)
Apesar de o incêndio ter acontecido no dia 25 de março de 1911, esse e inúmeros problemas que as mulheres enfrentavam no trabalho, contribuíram para a fortificação de um dia da mulher. O dia 8 de março foi sendo reconhecido como o Dia Internacional das Mulheres.
Pelo fim da violência contra a mulher!
Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, revela que:
“- A cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem no Brasil;
-Cerca de uma em cada cinco brasileiras (19%) declara espontaneamente ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem;
-Um terço das mulheres (33%) admite já ter sido vítima, em algum momento de sua vida, de alguma forma de violência física (24% de ameaças com armas ao cerceamento do direito de ir e vir, de 22% de agressões propriamente ditas e 13% de estupro conjugal ou abuso).
-27% sofreram violências psíquicas e 11% afirmam já ter sofrido assédio sexual. Um pouco mais da metade das mulheres brasileiras declara nunca ter sofrido qualquer tipo de violência por parte de algum homem (57%).” (Consulte a pesquisa em: www2.fpa.org.br)
Com dados tão alarmantes, vemos que a luta das mulheres e da sociedade em geral ainda é longa. Mesmo com a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, muitas pessoas não tem conhecimento dela. Além disso, os números são alarmantes e precisam ser reduzidos. (Leia mais sobre o assunto em: www.violenciamulher.org.br)
Há muita luta a ser travada!
Pela legalização do aborto!
Segundo dados Ministério da Saúde (SIM), 10% das mortes maternas em 2009 foram ocasionadas por abortos, espontâneos ou provocados. Segundo pesquisa realizada em 2007 (A Magnitude do Aborto no Brasil: aspectos epidemiológicos e socioculturais - Ipas - IMS/UERJ), com dados de 1992 a 2005, estima-se que ocorram 1.054.243 abortos anualmente no Brasil. (Saiba mais em: www.agenciapatriciagalvao.org.br).
Apesar desses e de outros dados tão alarmantes, o aborto continua sendo proibido, tanto legalmente como moralmente. O Estado não é laico como se diz ser, mistura fervorosamente fé com política, não aprova legalização do aborto mas, no dia 19 de maio de 2010, foi aprovado na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados em Brasília, o Estatuto do Nascituro (Lei 478/07
Essa discussão é longa, polêmica e cercada de machismo. Várias mulheres morrem por tentar um aborto, mulheres são estupradas e tem por demora do juiz, de dar a luz um filho fruto de um estupro. Além disso, várias mulheres não são atendidas de forma rápida, ou com educação por funcionários que sabem que ela cometeu um aborto.
Sabe-se que tanto as mulheres pobres, quanto as que têm dinheiro fazem aborto. Fechar os olhos para isso é deixar que morram. A campanha pró-vida, que se acha defensora da vida e protetora dos direitos, defende os direitos de quem? Eles não vão cuidar dos filhos que nascerem, já que a gravidez não pode ser interrompida, não vão comprar comida, material escolar, acordar a noite pra ver por que a criança está chorando. O Estado não dá garantias e condições para uma vida justa e igualitária, por que acham então que defendem a vida quando condenam o aborto? É esse discurso que mata mais, pensar que “a culpa é da mulher” só destroe ainda mais seu equilíbrio emocional. É fingir que vai ficar tudo bem se ela tiver o filho que vai fazer com que muitos fiquem na rua, já que a mãe não tem condições para criá-lo, e morram por terem se viciado em drogas, por roubar algo para comer.
Deve-se garantir contraceptivos para as mulheres, acompanhamento médico pelo SUS, educação sexual para que todos saibam como se prevenir gravidez e DSTs.
Há muita luta a ser travada!
Por igualdade de salários!
“O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no dia 8 de março de 2010 a pesquisa “Mulher no Mercado de Trabalho: Perguntas e Respostas”. Ela mostra que as mulheres continuam a ganhar menos que os homens, apesar de ganharem no quesito escolaridade. Enquanto os homens receberam em média R$ 1.518,31, elas ganharam R$ 1.097,93 no ano passado. Para que o salário das mulheres se iguale ao dos homens, o rendimento das trabalhadoras precisa subir 38,3%, apesar de a pesquisa mostrar que essa diferença vem diminuindo. Segundo o IBGE, essa discrepância leva em conta a comparação de pessoas de mesma escolaridade, que exercem atividades semelhantes. “Tanto para as pessoas que possuíam 11 anos ou mais de estudo quanto para as que tinham curso superior completo, os rendimentos da população masculina eram superiores aos da feminina”, informa o instituto.”
Apesar de mais escolaridade, a mulher continua ganhando menos.
Há muita luta a ser travada!
Sem mais abusos da imagem feminina!
Objetos. É assim que muitas mulheres são mostradas na mídia. Mulheres que aparecem na televisão, e não precisam dizer absolutamente nada, desde que tenham uma boa aparência (bunda, perna e seios, tudo avantajado). Mulheres que mais parecem animais no cio, que sempre estão disponíveis para serem tocadas, olhadas pelos mais diferentes e indiscretos ângulos. Mulheres por vezes inalcançáveis, com sua perfeição estética, corpo escultural, mas que não entendem muito bem das coisas. Na verdade, elas são bonitas, mas caladas. Parecem ser bem sucedidas, independentes, ocupadas, parecem ter controle das situações. Quando na verdade ela é escrava da imagem, é submissa aos desejos masculinos, ela é imagem distorcida de muitas mulheres que assistem a TV e se veem feias, por que não são como elas.
Tudo muito diferente de muito tempo atrás, quando mostrar o pulso era algo quase erótico. Muita coisa mudou, e talvez a tão liberdade sonhada com a luta feminina não tenha vindo ainda, já que sendo escravas da imagem, subestimam as mulheres, achando que são descartáveis, realizadora de desejos sexuais a todo momento.
A mulher que decide, que organiza, que lidera, que não precisa do corpo como atrativo, por que possui sua própria identidade, sua personalidade desvinculada da exploração da imagem sensual, causa espanto e não agrada tanto a mídia.
Debates sobre o assunto devem acontecer, a mulher deve se ver na televisão e entender que aquela imagem não é ela, não daquela forma. Ela deve ser valorizada e deve acima de tudo se valorizar, como trabalhadora, como produtora de seu destino, como mulher de verdade.
Há muita luta a ser travada!
Comemoremos o dia 8, como um dia de luta como tantos outros. Luta que deve ser travada todo os dias de todas as formas, combatendo o machismo, desigualdade, violência, criminalização do aborto, e o abuso da imagem da mulher!
Feliz dia 8 de março. Lutemos mulher!
Coletivo Conceição Evaristo
coletivofeministaexnel.blogspot.com

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

II Encontro Nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras

30 de março a 2 de abril de 2011 – Brasília/DF
Informações: http://enamb2011.wordpress.com ou http://www.articulacaodemulheres.org.br




O Encontro Nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (ENAMB) é um espaço de debates aberto e autogestionado por suas participantes. O primeiro ENAMB foi realizado em 2006, e reuniu cerca de 500 mulheres de todo o país.

O ENAMB 2011 será realizado em Brasília/DF, no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB), entre os dias 30 de março e 2 d abril. Entre os objetivos do encontro está o de contribuir para a orientação de nossas lutas, não sendo voltado para deliberações: nada será aprovado ou desaprovado, mas tudo será discutido. Metodologicamente, será organizado de modo a facilitar a escuta das análises, interpretações e proposições resultando de um processo amplo de debates a partir dos agrupamentos estaduais ligados à AMB em todo o país.

Um espaço para debates entre diversas mulheres feministas

A decisão de realizar o ENAMB 2011 se pauta na compreensão de que é imprescindível ampliar, entre nós feministas, o diálogo e a reflexão frente a um contexto de crise na política brasileira, que exige o fortalecimento dos movimentos sociais, entre os quais, os movimentos feministas.
Por isso, um encontro nacional: um espaço democrático para expressar ao mundo o que propomos e o que rejeitamos frente a uma arena política marcada pelas forças do mercado, pelo neoliberalismo, pelo fundamentalismo e pelo pragmatismo político, que abandona o horizonte utópico mobilizador da construção de outra sociedade, com novas relações sociais de gênero e raça, sem desigualdade de classe ou qualquer forma de discriminação.

Para a Articulação de Mulheres Brasileiras, o momento exige a construção de alianças e compromissos comuns entre nós feministas, bem como a formulação de um programa de ações coletivas que aprimore os desafios e caminhos da nossa luta. Para isso, convocamos um encontro nacional aberto a todas as militantes que se identifiquem e se comprometam com suas diretrizes e princípios.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Portugal, 3 anos de aborto legal, seguro e gratuito

Em 11 de Fevereiro de 2007 os portugueses decidiram em plebiscito que as mulheres deveriam poder abortar, por sua opção, até à 10ª semana em condições de segurança num estabelecimento de saúde autorizado.

Em 1998 tinha-se realizado um plebiscito sobre o mesmo tema em que despenalização do aborto tinha sido derrotada, pelo que até 2007 o aborto em Portugal continuava a ser crime, com exceção dos casos em que a gravidez apresentasse perigo de morte ou lesão grave para a saúde física e psíquica da mulher, em caso de malformação congênita ou doença incurável do feto ou em situação de violação da mulher. Para o plebiscito de 2007, além dos partidos politicos, organizaram-se também diversos movimentos a favor e contra a despenalização do aborto, que realizaram campanha na rua e na televisão (todos com o mesmo tempo) pelas suas posições. A vitória da posição do sim à despenalização do aborto no plebiscito de 2007 foi, por isso, produto de um amplo debate que atravessou a sociedade portuguesa. A igreja católica foi um setor fundamental na campanha do não à despenalização, que saiu fortemente derrotada neste plebiscito

Em julho do mesmo ano a lei foi posta em prática. A partir daí todas as mulheres residentes em Portugal, de nacionalidade portuguesa ou não, podem ter acesso a um aborto seguro e gratuito no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O processo é relativamente simples, uma mulher só tem que se dirigir a um hospital ou a um posto de saúde e dizer que quer fazer um aborto. Primeiro terá que ir a uma consulta prévia onde fará um breve exame médico e será informada sobre os métodos de aborto. Nessa consulta lhe é oferecido aconselhamento psicológico que ela poderá aceitar ou não. Depois seguem-se três dias de reflexão obrigatória após os quais o aborto poderá ser realizado se for comprovado por ultrassom que a gravidez tem menos de 10 semanas.

As mulheres podem optar por um aborto medicamentoso ou cirúrgico. O medicamentoso é feito com recurso a dois fármacos que em conjunto provocam e simulam um aborto em tudo semelhante a um aborto espontâneo e têm uma eficácia de 98-99%. Para além disso este processo tem a vantagem de não necessitar de internamento. Pode-se também optar pelo processo cirúrgico, feito na maioria das vezes com anestesia geral, pelo processo de aspiração por vácuo ou curetagem (raspagem). Duas semanas mais tarde a mulher deverá ir a uma terceira consulta, depois de ter feito um novo ultrassom para confirmar que a gravidez terminou e para ser aconselhada acerca do método contraceptivo que melhor se adapta a si.

A implementação da lei
Os movimentos antiescolha argumentavam que a realização de abortos no SNS iria trazer o caos aos serviços, que iria roubar recursos para dar às mulheres que queriam abortar. Não se verificou nenhum caos. Segundo Mara, médica de Medicina Geral e Familiar e cofundadora da Associação Médicos pela Escolha[1](MPE) “podemos afirmar que a implantação da nova lei de IVG (interrupção voluntária da gravidez, ou aborto) correu bem. Para isso foi fundamental a regulamentação detalhada. Quais os estabelecimentos de saúde que podem realizar IVG, o circuito da utente, estabelecer limites no tempo máximo de espera das várias etapas, desde o primeiro contato da mulher até a consulta de planejamento familiar pós-aborto. Para otimizar a qualidade dos serviços prestados foram também realizados protocolos de atuação, quer no aborto médico como no cirúrgico”. Segundo Mara outra questão que foi muito importante para a implementação da lei foi a regulamentação da objeção de consciência, nomeadamente que “o direito à objeção de consciência que é um direito individual e não coletivo, isto é, não pode haver um Serviço de Saúde objetor de consciência, apenas médicos objetores. É importante também referir que os médicos objetores têm obrigatoriamente que encaminhar a utente a um médico que não seja objetor”.
A existência do aborto medicamentoso também facilitou a implementação do aborto pois pode ser realizado em ambulatório, não necessitando de internamento ou de tantos recursos como o aborto cirúrgico. 95,7% dos abortos feitos no SNS foi realizada pelo método medicamentoso. Há, inclusive, postos de saúde onde é possível realizar um aborto através do método medicamentoso. Para que estes postos o pudessem fazer foi apenas necessário que os médicos e enfermeiras recebessem formação, e terem que ter disponível o acesso a uma consulta de apoio psicológico.
Nem mais uma morte por aborto clandestino
Ana de 14 anos foi uma das últimas mulheres a morrer em Portugal vítima de aborto clandestino. Depois de implementada a lei que permite a interrupção da gravidez por opção da mulher não foi registrada mais nenhuma morte por aborto e as complicações graves como perfuração do útero e sépsis tornaram-se extremamente raras.
Passados 3 anos da implementação da lei a redução do número de abortos clandestinos foi drástica, havendo ainda um número reduzido, muito por falta de conhecimento da nova lei e também pelos casos em que as mulheres não conseguem fazer um aborto antes das 10 semanas. Segundo Mara dos MPE “continua a haver circulação ilegal de “cytotec” e acredito que a grande maioria dos abortos ilegais são medicamentosos, como já acontecia antes da legalização, e estes têm menos complicações que os abortos cirúrgicos, daí o grande decréscimo de complicações. Principalmente em relação a grupos mais vulneráveis (imigrantes, adolescentes) continua a ser urgente informar todas as mulheres do “novo” direito à escolha, assim como informar do acesso gratuito ao aborto e a confidencialidade de todo o processo”.
Para a Associação para o Planejamento da Família o prazo de 10 semanas é muito curto e dever-se-ia alargar o prazo para as 12-14 semanas tal como na maioria dos países europeus. Não seria o número de abortos total que iria aumentar mas sim os abortos clandestinos que seriam ainda mais reduzidos. Mara dos MPE, defende que para além disso “é excessivo que as adolescentes com menos de 16 anos, no novo quadro legal, só possam realizar IVG mediante consentimento informado dos pais (ou tutor legal), considero que qualquer mulher com uma gravidez não desejada tem autodeterminação suficiente para tomar decisões que só a ela (e a quem cada mulher desejar voluntariamente envolver) competem. É importante esclarecer que, por lei, todas as mulheres (e não só as adolescentes) que desejem realizar IVG têm acesso, sempre que desejaram, a apoio psicológico ou do serviço social, serviços que, embora não sendo obrigatórios, têm que ser sempre obrigatoriamente oferecidos e disponibilizados.
O direito ao aborto gratuito e seguro
A principal razão da redução drástica do aborto clandestino foi o fato deste ser gratuito no SNS, permitindo assim às mulheres trabalhadoras, que não têm recursos para pagar um aborto numa clínica privada, ter acesso a um aborto seguro. Estimava-se que se realizassem por ano entre 17000 a 20000 abortos em Portugal, por opção da mulher. Em 2009 realizaram-se 18951 abortos nestas condições, destes mais de 70% foram feitos no SNS.
Esta foi uma das grandes bandeiras dos Médicos pela Escolha que sempre defenderam que tão ou mais importante que legalizar o aborto era garantir que este fosse acessível às mulheres trabalhadoras com menos recursos. São estas mulheres que mais necessidade têm de planejar a sua família e mais provavelmente poderão ter que recorrer ao aborto perante uma gravidez inesperada. 19% das mulheres que fizeram um aborto em Portugal, em 2009, eram trabalhadoras não qualificadas, 18% eram estudantes, 17% estavam desempregadas. Estas mulheres consideraram não ter as condições necessárias para criar um filho e ao contrário do que acontecia antes de 2007 puderam tomar essa decisão com dignidade, independentemente dos seus recursos econômicos.
Por um aborto raro, legal e seguro
Um dos principais argumentos dos movimentos antiescolha era que o número de abortos iria aumentar exponencialmente porque as mulheres iriam deixar de fazer contracepção e passar a usar o aborto como único método de planejamento familiar. Sabíamos que isto não era verdade, mas apenas um atestado de imbecilidade passado às mulheres, o mesmo que dizer que estas não têm capacidade de decidir sobre a sua vida sexual e reprodutiva. Tal não aconteceu nos demais países onde o aborto foi legalizado e também não iria acontecer em Portugal.
E assim foi, não houve nenhum aumento exponencial do número de abortos, as mulheres não deixaram de fazer contracepção, aliás sabemos agora que 96% das mulheres que fizeram um aborto estavam usando algum método contraceptivo (60% tomavam a pílula). Um número semelhante a tantos outros países. A contracepção, qualquer que seja, falha e uma gravidez indesejada pode acontecer a qualquer mulher. Agora esta falha pode ser comunicada ao médico assistente que poderá ver em conjunto com a mulher se havia algum erro no uso do método contraceptivo e/ou escolher um método mais adequado, havendo mesmo uma consulta exclusiva para isso.
Além disso, entre as mulheres que abortaram apenas 4% tinham feito 2 ou mais abortos na sua vida, ou seja, tal como defendíamos, as mulheres na sua grande maioria, se tiverem acesso a métodos contraceptivos, só recorrem ao aborto quando todo o resto falha.
A luta não terminou aqui
A legalização do aborto e a sua realização no SNS é uma grande vitória para as mulheres em geral e em especial para as mulheres trabalhadoras. No entanto, ainda há aborto clandestino e enquanto assim for temos que continuar a lutar para que este desapareça por completo.
É necessário que o limite legal para a interrupção da gravidez seja aumentado, não há qualquer razão científica ou ética que justifique as 10 semanas. Na prática 10 semanas é um prazo muito curto para permitir que as mulheres descubram que estão grávidas e ainda consigam passar por todo o processo até a consulta de interrupção. Nos países onde o prazo limite é maior a porcentagem de abortos realizados não aumenta, apenas diminui ainda mais o aborto clandestino.
É necessário que se desenvolvam campanhas de informação acerca da nova lei para todas as mulheres, em especial às imigrantes, dizendo-lhes que todas têm direito a um aborto gratuito desde que residam em Portugal.
Para além do tempo limite ter de ser aumentado, a interrupção da gravidez deve ser ainda mais acessível através do aumento da disponibilização do aborto medicamentoso nos postos de saúde.
Não podemos esquecer que todo este processo deve ser acompanhado pela exigência de que os métodos contraceptivos sejam gratuitos e estejam amplamente disponíveis nos postos de saúde juntamente com a disponibilização de consultas médicas e de enfermagem para ajudar as mulheres a estabelecer o método que mais lhes convém. Devemos também continuar a exigir que haja educação sexual nas escolas para que os jovens ampliem o conhecimento do seu próprio corpo e saibam como evitar uma gravidez indesejada. Para que cada vez mais o aborto se torne raro, precoce e seguro.
No entanto, enquanto houver capitalismo, o acesso gratuito a um aborto seguro para as mulheres trabalhadoras estará sempre em causa. Neste momento Portugal está fortemente atingido pela crise econômica, o governo neoliberal de serviço, do Partido Socialista, já começou a passar a fatura aos trabalhadores e entre outras medidas está fazendo um grave ataque ao SNS com cortes gigantescos no seu orçamento. Estes ataques ao Serviço Nacional de Saúde colocam em risco, entre outras coisas, a realização do aborto de forma ampla, segura e gratuita, e portanto o acesso ao aborto pelas mulheres trabalhadoras. Este ano já houve setores que falaram na necessidade de apenas o primeiro aborto ser gratuito, tendo as mulheres que pagar pelos seguintes. Para além de que mesmo numa perspectiva econômica liberal os custos do tratamento das complicações de aborto clandestino acabam por ser maiores, a dignidade e a vida de uma mulher, que pode ser a nossa irmã, a nossa mãe, a nossa amiga, a nossa namorada, a mãe dos nossos filhos, não tem preço.
Além disso, não só é necessário o acesso ao aborto para todas as mulheres como também o acesso generalizado e gratuito a todos os métodos contraceptivos. Tal não é possível porque as grandes empresas farmacêuticas querem manter os gigantescos lucros deste mercado.
Lutar pelo direito a um aborto seguro e gratuito, assim como o direito ao Planejamento Familiar, será sempre para os trabalhadores uma luta incompleta se não estiver aliada à luta pelo fim do capitalismo.
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Diana Curado - militante do Ruptura/FER, secção da LIT em Portugal; médica e a membro da Associação Médicos pela Escolha. Artigo realizado com a colaboração de Marta Luz


[1] Associação de profissionais de saúde, e colaboradores de outras áreas, que luta pela defesa dos direitos sexuais e reprodutivos. Em 2006 criou um movimento com o mesmo nome que fez campanha para o plebiscito, defendendo o direito ao aborto seguro e gratuito.