sábado, 21 de maio de 2011

A mulher negra na sociedade de classes

*Débora Accioly Dionisio


[...]O negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como ‘igual’.[...] Ao contrário, para participar desse mundo, o negro  e o mulato  se viram compelidos a se identificar com o branqueamento psico-social e moral. Tiveram que de sair de sua pele, simulando a condição humana-padrão do ‘mundo dos brancos’.[...] (FLORESTAN, 1971, p.15) 
 
Partimos do princípio de que vivemos em uma sociedade dividida em classes antagônicas que coexistem num sistema que sobrevive da exploração de muitos em detrimento do poder e da ganância de poucos e que qualquer situação que tente alargar a distância entre os opressores e oprimidos deve ser amplamente combatida.
Inúmeros são os argumentos hegemônicos difundidos no seio de nossa sociedade - cada vez mais atrofiada pela luta de classes - para justificar a diferença racial e a divergência política que reside nessa diferença. O Capital, desde o seu surgimento, existe com a finalidade de acentuar quaisquer diferenças, forçando a existência de conflitos insuperáveis (nesse modo de sociabilidade), para assim, garantir a sua própria sobrevivência, a sua própria legitimidade. 
 
Um dos principais conflitos históricos no nosso País é a questão que envolve o debate intra-racial. O Brasil, sendo um país miscigenado na gênese de sua alma, conta em sua genética, com cromossomos europeus, indígenas, negros. E a coexistência dessas raças vem sendo ameaçada desde os primórdios. 
 
Condenados, desde sempre, a permanecerem marginais às conquistas sociais, econômicas e políticas, os negros tiveram que lutar para que sua memória sobrevivesse, para que nossos livros de história não contassem uma História mutilada, faltando uma parte tão imprescindível na nossa formação enquanto seres integrantes de uma realidade sócio-historicamente desenvolvida. 
 
Dentro do argumento de “país misturado” levantado pela classe dominante para tentar apagar ou induzir o desvio do debate racial, encontramos a maior legitimidade do sistema capital visando ampliar as distâncias exigidas num mudo de exploração. 
 
Existe ainda outra batalha tão dura e cruel quanto à batalha de pertencer ao seu próprio lugar enfrentada pelos negros: a batalha das mulheres. Mulheres que antes, lutavam por melhores condições e que hoje lutam por igualdade de condições. Mulheres que foram criadas e programas para desempanhar papéis socialmente definidos, quais sejam: dona de casa, esposa e mãe. Mulheres que precisaram queimar sutiãns em praça pública para serem ouvidas, para terem direito à participação mínima na ilusória democracia brasileira. Mulheres que até hoje lutam.

No que consistiriam em aglomerar os dois maiores discursos taxativos da sociedade pós-moderna? Quais são as lutas que tem que ser enfrentadas diariamente por mulheres negras? Elas não lutam ainda por igualdade, já que o respeito ainda não atingiu o mínimo necessário. Elas lutam por um salário digno – já que o salário da mulher negra é o mais baixo do mundo – lutam por não serem taxadas ou discriminadas pela cor da sua pele ou pela cor de seu batom. 
 
São mulheres, que têm que ser fortes desde o seu nascimento, lutando contra as imposições implícitas que diariamente afloram o preconceito sexual, a divisão sexual da sociedade. E têm que redobrar suas forças para combater o também presente e destrutivo racismo. O Brasil é sim composto de raças e nenhuma raça é superior a outra. Nenhum argumento que tente legitimar a diferença das cores cabe numa sociedade que se diz democrática. 
 
Enquanto pretos não puderem ser chamados de negros e forem chamados de “moreninhos”, a sociedade não estará pronta para reconhecer o seu caráter explorador, tendencioso e venenoso. 
 
Acreditamos e defendemos assim, que os plenos direitos de tod@s só serão verdadeiramente respeitados com uma transformação radical da sociedade atual. Acreditamos que só a revolução de pensamento, de corpo, de relações poderá emancipar verdadeiramente o ser humano, entregando a ele a liberdade plena. 
* Estudante de Letras da UFPB, militante feminista do Coletivo Feminista Conceição Evaristo e do Movimento de Casas de Estudantes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário